quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

XIV

   O pai, tão distante nos últimos dias.
   A mãe, sofrendo uma espécie de metamorfose ao longo dos anos.
   Emily, cuja beleza e encanto tinham sido em tempos catalisadores das mais arrebatadas paixões, foi desenvolvendo, no último país em que os Novak se fixaram, sérios problemas de obesidade. O país em si nada terá tido que ver com esta sua inesperada condição, a não ser pela remota circunstância de ser um país ocidental economicamente desenvolvido e, em virtude disso, apresentar a maior parte da população bem nutrida. Na verdade, as explicações para o galopante aumento de peso poderiam ser várias, percorrendo, entre outros, os campos da genética e da psicologia, sem que nenhuma delas, ao fim e ao cabo, parecesse a Emily completamente convincente, mesmo quando articulada com as restantes num qualquer relatório diagnóstico. Emily engordou e engordou – e o indesejado volume acrescido foi-lhe diminuindo a capacidade de interacção com o mundo exterior, até que, por fim, ficou reclusa do seu corpo em deformação. Nos derradeiros meses de vida, o simples facto de se movimentar – como, por exemplo, descer e subir as escadas que ligavam o piso de cima ao piso térreo – representava um dos mais penosos desafios e havia dias inteiros em que não saía do quarto ou do escritório, passando o tempo a ler ou a escrever no diário em tamanho A4 que Michael lhe oferecera por ocasião do quadragésimo aniversário. Ler e escrever – duas das poucas funções que o corpo ainda lhe permitia realizar e duas pontes que lhe mantinham a lucidez intacta.
   Perdera a juventude, a beleza e o encanto. Um preço justo pela sabedoria que se adquire com a idade, escreveu algures no diário. Um preço demasiado elevado quando vem acrescido da hipoteca dos anos vindouros.

segunda-feira, 25 de Janeiro de 2010

XXIII

   Quarenta minutos. E uma ameaça de pânico ganhando proximidade, alastrando-se até a um ponto em que é já impossível ignorar a sua presença. Podia ter apanhado um táxi, haveria dinheiro depois, quando chegasse a casa, para pagar a corrida. Porém, pensara de outra forma ao sair do restaurante, centrara-se na relação imediata entre os recursos e os meios, sem equacionar devidamente a extensão da demora.
   Dentro de um autocarro lento e trepidante, Michael via parte de si submergindo na imagem da cidade, emoldurada por uma enorme janela em movimento. Mas essa imagem era já muito pouco nítida ou inclusiva: bairros inteiros carcomidos pela penumbra, o comércio fechado, as ruas fantasmagóricas – e a ligação com a orgânica flexível do espaço-tempo definitivamente dissolvida.
   Um evento funesto poderia estar a desenvolver-se ainda longe dele, no seu próprio lar, e à medida que a distância diminuía, tornando gradualmente esse evento numa miséria particular, numa miséria restrita a dois ou três indivíduos, mais Michael se afligia na dimensão totalizante que ela tomava. É preciso relativizar o incerto – ouvira em tantas ocasiões –, a expectativa perante meras conjecturas. Todavia, essa era uma conquista dos grandes mestres, e ele, constatava-o tão bem no fluxo contínuo do seu reflexo afundado nos contornos citadinos, não passava de um aprendiz solitário e assustado.
   Quando chegou finalmente a casa, após correr ainda cerca de cem metros a uma velocidade olímpica, passou o pequeno pátio frontal quase de um salto e, desfazendo as três voltas da fechadura, abriu a porta da rua. Entrou na sala e reparou que as luzes do piso de cima estavam ligadas. Chamou pelos pais, mas ninguém respondeu. Um calafrio percorreu-lhe todo o corpo enquanto subia as escadas de acesso às divisões superiores. Voltou a chamá-los: primeiro a mãe, depois o pai. Silêncio. E depois dois corpos, um sobre o outro, inertes no chão.

quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

XXII

   No percurso até casa, entre corridas, esperas e mudanças de transporte, demorou quase quarenta minutos. Para trás, deixava Isabella, sentada à mesa em silêncio. Só e imóvel. Pensando, talvez, que seríamos todos caixas negras orgânicas, falsificadas e impenetráveis. E Robert, de olhos avermelhados, gritando da entrada do restaurante para o meio da confusão que se alastrava pela rua marginal: – Espera lá! Eu levo-te. – Não saindo, no entanto, do mesmo sítio.
   Quarenta minutos. Tempo de sobra para avivar as mais diversas memórias. Para configurar os mais dramáticos cenários.

   – Interessa-nos o mal dos outros – dissera-lhe Robert à porta de um dos bares. – As pessoas procuram e satisfazem-se com as intrigas. Querem saber os podres, confirmar as misérias alheias. Basta estar num sítio qualquer e alguém começar a falar mal de um conhecido, ou até de um estranho, “tu sabes lá o que ele fez...”, para que os nossos ouvidos se sintonizem nessa história. – Esboçou um gesto para dentro do bar e o empregado, que os observava desinteressado, pegou numa garrafa de tequila e encheu dois pequenos copos. – E quanto mais sórdida for a revelação, melhor para nós. Interessa-nos, sim, o mal dos outros. Somos curiosos e perversos. É como aquela cena da cabeça do domador dentro da boca do leão. Não queremos, no fundo, que o leão cerre os dentes e haja sangue nesse dia? Claro que queremos.
   – Somos curiosos – concordou Michael. – Quanto ao resto, não tenho tanta certeza.
   – Deixa de ser ingénuo – disse Robert. Pôs-lhe o braço por cima e arrastou-o uns metros até junto do balcão corrido. – Só me faltava agora começares com aquela conversa de que o que desejamos é o bem do próximo e que somos muito certinhos e… – interrompeu-se, tentando encontrar a expressão adequada – qualquer coisa bons… como é que se diz?
   – Naturalmente bons?
   – Isso, naturalmente bons. Que bela treta essa que nos impingiram.
   – Sempre é melhor do que a alternativa.
   Dispensando o sal e o limão que o empregado do bar colocara junto das bebidas, Robert pegou no seu copo e levou-o a embater no de Michael.
   – Não se a alternativa for a nossa verdadeira natureza – disse. E bebeu de uma vez o shot de tequila.
   Michael seguiu-lhe o exemplo e sentiu um súbito ardor por todo o esófago. A bebida, soube-o imediatamente, era muito mais forte do que o seu aspecto translúcido fazia crer. Teve de se esforçar para que o líquido não lhe saísse do organismo à mesma velocidade com que tinha entrado. Mas, entretanto, já duas cervejas repousavam à sua frente.
   – Tens um estômago forte, pá. Aguentas bem – gracejou Robert. – Na primeira vez que bebi tequila, ia-me vomitando todo.
   – Não consigo perceber porquê – ironizou Michael. As palavras saíram enroladas e pareceu-lhe que, ao pronunciá-las, cuspia fogo.
   Robert começou a rir.
   – Eu explico. Somos atraídos por tudo o que nos faz mal.
   Michael, sardónico, equacionou a possibilidade de Robert ter lido algumas páginas sobre o maniqueísmo, tendo-se ficado somente pela interpretação exagerada e açambarcadora de uma das partes dessa doutrina dualista, pois sugeria que não só a matéria era má, como também o espírito.
   – Desejamos, então, o pior para os outros e também para nós próprios?
   – Sim, é basicamente isso. Mas não é algo simples ou declarado. Tem a ver com o nosso inconsciente e essas coisas da psicologia.
   – Olha – disse Michael, pegando na cerveja e dando um gole, na esperança de afastar da garganta o sabor amargo –, admito que nos sintamos estimulados pela imagem do leão a cerrar os dentes numa cabeça humana. Mas isso não é nenhuma prova de que somos bons ou maus.
   – Ai não? – perguntou Robert, apoiando o cotovelo no balcão de madeira, que quase lhe dava pela altura do peito.
   – Não. É apenas a evidência de que gostamos de um desenlace que fuja à normalidade. Interessamo-nos, como tu disseste, pela história.
   – Pois, por uma história com desgraças e actos condenáveis.
   – Mas é aí que está o equívoco. O que interessa é a história, só depois a moral. – Por efeito da mistura de álcoois, ou simplesmente pelo estímulo do tópico, voltava-lhe a sensação de clarividência que o vinha acompanhando desde a chegada àquela zona da cidade e apenas interrompida pelo inesperado impacto da tequila. – Ou seja, podemos imaginar o leão a fechar a boca, porque isso dava uma boa história, fugiria ao que já sabemos: o leão, apesar de perigoso, foi treinado para se manter imóvel. E fica sempre imóvel.
   – Como nós – devolveu Robert –, confortavelmente sentados em frente à televisão, enquanto passa diante dos nossos olhos todo o tipo de tragédias.
   – Também somos treinados para nos mantermos imóveis, sim. E é por isso que procuramos, sob a forma de narrativas que normalmente não nos incluem, a fuga ao monótono e programado encadeamento da nossa existência normal. O que consideramos bom ou mau vem depois. A moral, neste caso, é um sucedâneo da história que se está a contar ou a decorrer. Se o enredo e a intriga forem realmente apelativos, levando a essa fuga incorpórea, penso que somos igualmente atraídos pelo mal e pelo bem. – Fez uma ligeira pausa e concluiu o raciocínio: – O que não quer dizer que sejamos todos impelidos da mesma forma pelas mesmas coisas.
   Robert torceu o nariz. Não lhe interessava que o comentário de circunstância inicial se transformasse numa prelecção. A única fuga evidente era a de Michael, saindo da zona comum em que é possível discorrer casualmente sobre este ou aquele assunto e aproximando-se do denso e indesejável campo teórico. Era importante, por isso, enfatizar a sua objecção.
   – Se isso fosse verdade, Michael, não se justificaria o estado da nossa sociedade. Tudo seria mais equilibrado. Não haveria tanto sangue, tanta miséria, tanta morte.
   Serenamente, Michael perguntou:
   – Mas tu já viste alguém, de facto, a ser baleado ou esfaqueado? Já passaste fome?
   Robert ficou perplexo.
   – Só faltava dizeres nada que disto acontece, que é tudo uma invenção.
   – Em certa medida, é uma “fabricação” – afirmou Michael, salientando a última palavra. – Basta pensar que a frequência com que vemos desgraças na Internet e na televisão é muito maior do que aquela que experienciamos no nosso dia-a-dia. E, se são notícias e não vivências, se não nos afectam directamente, são demasiado distantes para nos serem reais e nos levarem a agir. – Fez uma pausa e viu Robert beber o resto da cerveja, num sinal de impaciência. – Não me interpretes mal, também me parece que não vivemos num mundo justo e equilibrado, pelo contrário, mas isso tem mais a ver com a estrutura da sociedade do que com a dos indivíduos.
   – Pois claro, vamos fazer uma distinção entre ambos. Tiramos os indivíduos da sociedade, porque não são eles que a constituem – escarneceu Robert. – Assim, de certeza que se evita qualquer problema.
   – Todos os indivíduos, não. Só alguns – disse Michael, circunspecto. – Exactamente aqueles que a moldam, contribuindo para a estupidificação geral.
   Robert sorriu maliciosamente.
   – E quem são eles? Os leões ou os domadores? – perguntou, apertando novamente o amigo contra si, como se o contacto físico fosse um complemento indispensável à parte verbal.
   O empregado do bar, que por esta altura seguia, de braços cruzados e cabeça bem erguida, um encontro desportivo no enorme plasma colocado por cima da porta de entrada, olhou pela primeira vez com verdadeira curiosidade para aquela dupla de jovens rapazes – a única clientela até ao momento e, ainda por cima, com tendências demasiado amistosas para o seu gosto.
   – Eh!, se querem brincar aos casalinhos, façam o favor de pagar e porem-se ao fresco – disse, encenando uma postura máscula e homofóbica que os apanhou de surpresa.
   Michael, pouco dado a este tipo de confrontos, desembaraçou-se do aperto de Robert e, sem dizer nada, pagou a conta, enquanto o amigo, após uns segundos de incredulidade, se desmanchava em estridentes gargalhadas.
   – Anda, querido, vamos embora – disse Robert, encaminhando-se para a saída, com a mão na cintura.
   Já na rua, procurando outro poiso onde se providenciasse bebidas igualmente baratas e empregados menos susceptíveis, virou-se para o apático Michael:
   – Pronto, pronto, não é preciso ficares chateado – disse, com esforço para conter o riso. – Já entendi o teu ponto de vista. Uns são domadores e outros são leões, mas, apesar disso, não deixam de ser todos naturalmente estúpidos. – Culminou a frase com uma nova gargalhada.
   Caminhando a olhar para o rio, Michael arregalou os olhos, como se naquele apontamento parodístico se ocultasse um efeito de atracção tão ou mais eficaz do que os seus argumentos, agora entendidos como generalizações inócuas.
   – Deve ser isso – respondeu. – Nem bons, nem maus — naturalmente estúpidos.
   E com tendência para perpetuar essa estupidez, acrescentaria agora, a bordo de um autocarro que se demorava pela cidade, efectuando o trajecto inverso ao que ele e Robert haviam percorrido horas atrás.

sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

XXI

   – Tem calma. Vou já para aí – disse Michael, desligando o telefone.
   Começou a procurar dinheiro nos bolsos das calças e a tentar localizar Robert, sendo, entretanto, envolvido pela atrapalhação inerente aos momentos em que se quer fazer tudo ao mesmo tempo. Tinha de pagar a conta e encontrar a forma mais rápida – e segura – de ir para casa. Robert permanecia ainda detido com David junto à entrada do restaurante, em espirituosa intimidade com algumas jovens de outro grupo de convivas. Evidenciava cada vez mais dificuldade em se manter equilibrado, facto que não incomodava ninguém a não ser agora Michael. Tinha de ir embora o quanto antes. A mãe esperava-o. O pai precisava de auxílio. Num dos bolsos encontrou alguns trocos e uma nota de 20 euros, a única que ainda lhe restava, e colocou-a sobre a mesa. O pai –menos acessível nos últimos tempos, quase sempre relutante face às solicitações que o afastavam do grande projecto em curso. E, contudo, num crescente respeito pelas opiniões de Michael, seu prosseguidor, de acordo com as palavras do próprio, na árdua tarefa de trazer um fio de luz ao obscuro domínio humano. Obstinado, teimoso – sobretudo em privado –, mas sem nunca deixar de transparecer que era movido por preocupações filantrópicas. Era urgente, por isso mesmo e de acordo com a mensagem subliminar de Emily, levar-lhe algum bom senso.
   – Então, algum problema? – perguntou-lhe Isabella.
   – Sim –, respondeu vagamente, enquanto se levantava, arrastando a cadeira.
   Contou as moedas que ainda lhe sobravam e concluiu que a quantia não era suficiente para um táxi. Teria de recorrer a um dos autocarros nocturnos.
   Isabella segurou-lhe o braço e esboçou um sorriso.
   – Vais embora, não é? Queres companhia?
   – É melhor não. Continuamos a conversa noutra altura.
   De pé e pronto a partir, reteve, por instantes, os sentidos na mão leve que não o largava. Um contacto inesperado, aquele, gerando-lhe uma descarga de energia no corpo. De forma sibilina, a mão de Isabella prendia-o de novo ao cenário por onde entravam luzes multicolores, o rio, a noite amena. E isto sem que, nessa afluência, deixassem de surgir os fragmentos protensos de um lar onde decorreria um evento funesto.
   – Deixa-me agradecer, pelo menos, a tua história – disse Isabella. – Não a vou esquecer.
   Fora de contexto, o contacto e o instante, ambos ambíguos, perturbando a sequência da linha narrativa, a necessidade de reduzir ao limite a paisagem e o tempo entre dois pontos geográficos: o restaurante e a casa nos subúrbios. A mão dela no braço dele, a troca de olhares que rompia qualquer superfície ou defesa. Caso fosse possível entendê-los à luz de uma percepção exterior, compor a moldura do instante em ângulo oblíquo, ou câmara alta, como se de um período fílmico se tratasse, poder-se-ia especular sobre a aparição de um sentimento potenciado, sobretudo, em estados alterados de consciência. Isabella insinuava-se, insinuara qualquer coisa. Toda a sua figura feminina adquirindo uma aura feérica, embora acessível, quase sedutora. Um brilho invulgar nos olhos, enfatizando os contornos harmoniosos do rosto, os seios firmes e salientes.
   – Tens razão – respondeu Michael instintivamente. – Sou um anormal.
   E, dizendo isto, desprendeu-se, seguindo a passo largo para fora do restaurante.
   Sempre em movimento, passou por Robert, dando-lhe uma breve explicação e quase levando à frente David. Saltou os degraus da entrada e começou a correr em direcção à paragem do autocarro, cujas luzes cintilavam no extremo da rua.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

XX

   Passava, então, das 23.00h e Emily ligou a Michael.
   Carl não se estava a sentir bem, acometido de fortes dores de cabeça e náuseas. Emily dera por ele sentado no cadeirão do escritório, com o cesto de papéis sobre as pernas. Murmurava um conjunto de fonemas indistintos que, pelo seu carácter repetitivo, tanto poderiam pertencer a uma fórmula matemática como à recitação de uma elegia ancestral. Lívido, balançava subtilmente a parte superior do corpo, numa espécie de transe, e mantinha a cabeça próxima do cesto, como se a qualquer momento algo pudesse jorrar das suas entranhas.
   – Carl, o que é que tu tens? – perguntou Emily apreensiva, arrastando-se vagarosamente até junto dele e colocando-lhe a mão na testa. – Oh, meu Deus, estás tão frio. Dói-te alguma coisa? – Levantou-lhe a cara com as mãos em forma de tenaz e examinou-o. – Estás mal disposto?
   Carl, com as pupilas dilatadas, limitou-se a dar uma resposta sucinta e incompleta:
   – Um sabor esquisito na garganta.
   – Temos de ir ao hospital, é preciso levar-te de imediato ao hospital.
   – E não foram porquê? – perguntou-lhe Michael ao telefone. – Porque é que não chamaste uma ambulância ou um médico?
   – Bem tentei, mas ele opôs-se e impediu-me de ligar para as Emergências. Não sei o que fazer – confessou, esforçando-se ao mesmo tempo para não entrar numa histeria alarmante –, ele continua ali, a sussurrar coisas que não entendo, depois cala-se, esquecido ou com dificuldade em continuar, e quando lhe tento dizer alguma coisa, apenas responde que te quer ver a ti e a mais ninguém. Ainda não saiu do escritório e, mesmo se quisesse, acho que não se conseguiria levantar.
   Michael suspirou – a teimosia do pai não lhe era estranha; a doença, pelo contrário, era-o bastante. Até onde se lembrava, nunca o tinha visto sequer constipado. Neste capítulo, parecia existir um antigo acordo tácito na divisão de tarefas e incumbências familiares, tendo Emily ficado com a exclusiva responsabilidade de comportar quaisquer problemas de saúde que se viessem a infiltrar no seio dos Novak. A pseudo-imunidade de Carl, por contraste, dotava-o de uma certa arrogância perante a doença e perante a própria morte. Recusava-se a pôr os pés em cemitérios, hospitais e afins, à excepção de quando, de tempos a tempos, era forçoso levar a mulher a uma das consultas que lhe eram indispensáveis. Mas, mesmo nessas circunstâncias, ficava à espera no átrio, no carro ou num café das imediações. Jamais tinha ultrapassado o limiar de acesso a alas hospitalares ou consultórios, e considerava que tal, não se tendo constituído como requisito essencial na hora do seu nascimento, pois a mãe dera à luz em casa, não haveria de ser necessário de todo. Com o passar dos anos, foi granjeando a fama de excêntrico, um excêntrico invulgarmente saudável, é conveniente frisar, que suscitava entre os seus pares, na maioria académicos de idade avançada, uma inveja apenas comparável à desconfiança relativa às investigações académicas que ia desenvolvendo, normalmente catalogadas como tapeçarias de retalhos provenientes de algumas das menos conseguidas teorias contemporâneas. Nem de esquerda, nem de direita; nem filosofia (continental ou analítica), sociologia, economia ou literatura. Uma verdadeira salganhada, em bom vernáculo. De nada valia a Carl defender-se, argumentando que, embora ainda num estádio inicial, procurava formular uma possibilidade de síntese dialéctica, a síntese necessária para que o novo milénio não se fragmentasse, paradoxalmente, perante um discurso mediático totalizante. Viam-no como excêntrico: por um lado, objectivando, por si só e com tão mediana connaissance, projectos desconexos; por outro, adverso aos doutos discípulos e edifícios de Asclépio.
   – Essa sua postura tem algo em comum com a do Doktor Faustus. Terá o colega feito algum acordo com Mefistófoles? – zombou, um dia, no final de uma reunião de departamento, Eric Schlick, professor auxiliar que cobiçava o lugar de Carl.
   – Não seja injusto, caro Schlick – disse um dos professores mais velhos, a “velha raposa” L.T. Corbin, entrando na brincadeira cínica, pois vira nela uma oportunidade de libertar algumas deliciosas farpas –, essa “particularidade”, chamemos-lhe assim, com as devidas aspas, lembra muito mais Admeto, salvo da predestinada morte pela interferência de Apolo. O mesmo se passa com o Novak: adiaram-lhe o dia fatal. E ele sabe-o, com certeza. Não admira, assim, que não tema uma investida das Moiras e continue a deambular, ufano e incólume, pela nossa próspera comunidade.
   – Oh, não, não – interveio ainda o coordenador do departamento, Charles Bonfand –, não um Admeto, que necessitou de um sacrifício em favor da indulgência. Um Aquiles, isso sim, blindado e temível. – Virou-se para Carl e dirigiu-lhe um sorriso malicioso. – Características que, no fundo, podem ser igualmente atribuídas aos seus últimos ensaios.
   Todos se riram, excepto Carl, que fortaleceu a convicção de que andava a perder tempo entre idiotas. Porém, reagiu com um sorriso idêntico nos lábios, decidido a não dar parte fraca. E ripostou, jogando o mesmo jogo. Penitenciou-se, de início, por ainda ser incapaz de tornar as suas ideias acessíveis aos restantes mortais, debilidade suficiente para comprovar a ausência de algum favorecimento divino. Se bem que, continuou, já embalado por um instinto mordaz, julgava ter também sido banhado num rio quando era ainda muito novo, não no rio Estige, num riacho que existia na sua cidade natal, lá para os lados do Alabama, junto aos enormes laboratórios de uma farmacêutica multinacional. Uma multinacional, bem vistas as coisas, semelhante àquelas que, de vez em quando, financiavam as conferências e colóquios na faculdade. Bom, fora quase afogado em águas anti-sépticas, dir-se-ia, e, em virtude disso, qualquer contacto adicional com as ditas substâncias, abundantes no riacho e em locais conhecidos por todos, só lhe poderia trazer complicações, ao invés de benefícios.
   – Aqui está, perante vós, a minha verdadeira história – ironizou, por fim. – No meu comportamento, não há um pingo de superstição, apenas de prudência.
   – Bravo! – aplaudiu Bonfand. – Um homem sem igual. Dispensa o favor dos deuses e a arte dos mortais.
   Todos se voltaram a rir, incluindo Carl e as colegas presentes na reunião, todas elas conscientes de que assistiam a uma disputa semelhante à dos jovens machos que se divertem impondo castigos, por vezes mesmo físicos, uns aos outros.
   A reunião acabou por retomar a ordem de trabalhos do dia, antes que nova réplica pudesse ter lugar, e o caso Novak foi relegado para segundo plano.
   Carl, sempre sorrindo, olhava os colegas, fulminando-os interiormente.