No percurso até casa, entre corridas, esperas e mudanças de transporte, demorou quase quarenta minutos. Para trás, deixava Isabella, sentada à mesa em silêncio. Só e imóvel. Pensando, talvez, que seríamos todos caixas negras orgânicas, falsificadas e impenetráveis. E Robert, de olhos avermelhados, gritando da entrada do restaurante para o meio da confusão que se alastrava pela rua marginal: – Espera lá! Eu levo-te. – Não saindo, no entanto, do mesmo sítio.
Quarenta minutos. Tempo de sobra para avivar as mais diversas memórias. Para configurar os mais dramáticos cenários.
– Interessa-nos o mal dos outros – dissera-lhe Robert à porta de um dos bares. – As pessoas procuram e satisfazem-se com as intrigas. Querem saber os podres, confirmar as misérias alheias. Basta estar num sítio qualquer e alguém começar a falar mal de um conhecido, ou até de um estranho, “tu sabes lá o que ele fez...”, para que os nossos ouvidos se sintonizem nessa história. – Esboçou um gesto para dentro do bar e o empregado, que os observava desinteressado, pegou numa garrafa de tequila e encheu dois pequenos copos. – E quanto mais sórdida for a revelação, melhor para nós. Interessa-nos, sim, o mal dos outros. Somos curiosos e perversos. É como aquela cena da cabeça do domador dentro da boca do leão. Não queremos, no fundo, que o leão cerre os dentes e haja sangue nesse dia? Claro que queremos.
– Somos curiosos – concordou Michael. – Quanto ao resto, não tenho tanta certeza.
– Deixa de ser ingénuo – disse Robert. Pôs-lhe o braço por cima e arrastou-o uns metros até junto do balcão corrido. – Só me faltava agora começares com aquela conversa de que o que desejamos é o bem do próximo e que somos muito certinhos e… – interrompeu-se, tentando encontrar a expressão adequada – qualquer coisa bons… como é que se diz?
– Naturalmente bons?
– Isso, naturalmente bons. Que bela treta essa que nos impingiram.
– Sempre é melhor do que a alternativa.
Dispensando o sal e o limão que o empregado do bar colocara junto das bebidas, Robert pegou no seu copo e levou-o a embater no de Michael.
– Não se a alternativa for a nossa verdadeira natureza – disse. E bebeu de uma vez o shot de tequila.
Michael seguiu-lhe o exemplo e sentiu um súbito ardor por todo o esófago. A bebida, soube-o imediatamente, era muito mais forte do que o seu aspecto translúcido fazia crer. Teve de se esforçar para que o líquido não lhe saísse do organismo à mesma velocidade com que tinha entrado. Mas, entretanto, já duas cervejas repousavam à sua frente.
– Tens um estômago forte, pá. Aguentas bem – gracejou Robert. – Na primeira vez que bebi tequila, ia-me vomitando todo.
– Não consigo perceber porquê – ironizou Michael. As palavras saíram enroladas e pareceu-lhe que, ao pronunciá-las, cuspia fogo.
Robert começou a rir.
– Eu explico. Somos atraídos por tudo o que nos faz mal.
Michael, sardónico, equacionou a possibilidade de Robert ter lido algumas páginas sobre o maniqueísmo, tendo-se ficado somente pela interpretação exagerada e açambarcadora de uma das partes dessa doutrina dualista, pois sugeria que não só a matéria era má, como também o espírito.
– Desejamos, então, o pior para os outros e também para nós próprios?
– Sim, é basicamente isso. Mas não é algo simples ou declarado. Tem a ver com o nosso inconsciente e essas coisas da psicologia.
– Olha – disse Michael, pegando na cerveja e dando um gole, na esperança de afastar da garganta o sabor amargo –, admito que nos sintamos estimulados pela imagem do leão a cerrar os dentes numa cabeça humana. Mas isso não é nenhuma prova de que somos bons ou maus.
– Ai não? – perguntou Robert, apoiando o cotovelo no balcão de madeira, que quase lhe dava pela altura do peito.
– Não. É apenas a evidência de que gostamos de um desenlace que fuja à normalidade. Interessamo-nos, como tu disseste, pela história.
– Pois, por uma história com desgraças e actos condenáveis.
– Mas é aí que está o equívoco. O que interessa é a história, só depois a moral. – Por efeito da mistura de álcoois, ou simplesmente pelo estímulo do tópico, voltava-lhe a sensação de clarividência que o vinha acompanhando desde a chegada àquela zona da cidade e apenas interrompida pelo inesperado impacto da tequila. – Ou seja, podemos imaginar o leão a fechar a boca, porque isso dava uma boa história, fugiria ao que já sabemos: o leão, apesar de perigoso, foi treinado para se manter imóvel. E fica sempre imóvel.
– Como nós – devolveu Robert –, confortavelmente sentados em frente à televisão, enquanto passa diante dos nossos olhos todo o tipo de tragédias.
– Também somos treinados para nos mantermos imóveis, sim. E é por isso que procuramos, sob a forma de narrativas que normalmente não nos incluem, a fuga ao monótono e programado encadeamento da nossa existência normal. O que consideramos bom ou mau vem depois. A moral, neste caso, é um sucedâneo da história que se está a contar ou a decorrer. Se o enredo e a intriga forem realmente apelativos, levando a essa fuga incorpórea, penso que somos igualmente atraídos pelo mal e pelo bem. – Fez uma ligeira pausa e concluiu o raciocínio: – O que não quer dizer que sejamos todos impelidos da mesma forma pelas mesmas coisas.
Robert torceu o nariz. Não lhe interessava que o comentário de circunstância inicial se transformasse numa prelecção. A única fuga evidente era a de Michael, saindo da zona comum em que é possível discorrer casualmente sobre este ou aquele assunto e aproximando-se do denso e indesejável campo teórico. Era importante, por isso, enfatizar a sua objecção.
– Se isso fosse verdade, Michael, não se justificaria o estado da nossa sociedade. Tudo seria mais equilibrado. Não haveria tanto sangue, tanta miséria, tanta morte.
Serenamente, Michael perguntou:
– Mas tu já viste alguém, de facto, a ser baleado ou esfaqueado? Já passaste fome?
Robert ficou perplexo.
– Só faltava dizeres nada que disto acontece, que é tudo uma invenção.
– Em certa medida, é uma “fabricação” – afirmou Michael, salientando a última palavra. – Basta pensar que a frequência com que vemos desgraças na Internet e na televisão é muito maior do que aquela que experienciamos no nosso dia-a-dia. E, se são notícias e não vivências, se não nos afectam directamente, são demasiado distantes para nos serem reais e nos levarem a agir. – Fez uma pausa e viu Robert beber o resto da cerveja, num sinal de impaciência. – Não me interpretes mal, também me parece que não vivemos num mundo justo e equilibrado, pelo contrário, mas isso tem mais a ver com a estrutura da sociedade do que com a dos indivíduos.
– Pois claro, vamos fazer uma distinção entre ambos. Tiramos os indivíduos da sociedade, porque não são eles que a constituem – escarneceu Robert. – Assim, de certeza que se evita qualquer problema.
– Todos os indivíduos, não. Só alguns – disse Michael, circunspecto. – Exactamente aqueles que a moldam, contribuindo para a estupidificação geral.
Robert sorriu maliciosamente.
– E quem são eles? Os leões ou os domadores? – perguntou, apertando novamente o amigo contra si, como se o contacto físico fosse um complemento indispensável à parte verbal.
O empregado do bar, que por esta altura seguia, de braços cruzados e cabeça bem erguida, um encontro desportivo no enorme plasma colocado por cima da porta de entrada, olhou pela primeira vez com verdadeira curiosidade para aquela dupla de jovens rapazes – a única clientela até ao momento e, ainda por cima, com tendências demasiado amistosas para o seu gosto.
– Eh!, se querem brincar aos casalinhos, façam o favor de pagar e porem-se ao fresco – disse, encenando uma postura máscula e homofóbica que os apanhou de surpresa.
Michael, pouco dado a este tipo de confrontos, desembaraçou-se do aperto de Robert e, sem dizer nada, pagou a conta, enquanto o amigo, após uns segundos de incredulidade, se desmanchava em estridentes gargalhadas.
– Anda, querido, vamos embora – disse Robert, encaminhando-se para a saída, com a mão na cintura.
Já na rua, procurando outro poiso onde se providenciasse bebidas igualmente baratas e empregados menos susceptíveis, virou-se para o apático Michael:
– Pronto, pronto, não é preciso ficares chateado – disse, com esforço para conter o riso. – Já entendi o teu ponto de vista. Uns são domadores e outros são leões, mas, apesar disso, não deixam de ser todos naturalmente estúpidos. – Culminou a frase com uma nova gargalhada.
Caminhando a olhar para o rio, Michael arregalou os olhos, como se naquele apontamento parodístico se ocultasse um efeito de atracção tão ou mais eficaz do que os seus argumentos, agora entendidos como generalizações inócuas.
– Deve ser isso – respondeu. – Nem bons, nem maus — naturalmente estúpidos.
E com tendência para perpetuar essa estupidez, acrescentaria agora, a bordo de um autocarro que se demorava pela cidade, efectuando o trajecto inverso ao que ele e Robert haviam percorrido horas atrás.